quinta-feira, 31 de julho de 2014

Neste dia da Mulher Africana:




SUBSÍDIOS PARA UMA TOPONOMÁSTICA AFRICANA

Dos nomes geográficos e sua relação com a linguística

A definição de um corpus para uma toponomástica africana começa por algumas decisões concernentes às áreas disciplinares que terão de ser examinadas. Assim, além de decisões relativas a uma escolha de entre as várias disciplinas (como é a África percepcionada pelos africanos, tal como se manifestará na oratura, a rica e ainda incipientemente estudada tradição oral) que nos podem apontar caminhos para uma interpretação da toponímia deste continente avulta decerto uma reflexão sobre as componentes da área linguística, como a  Etimologia e a Semântica. Aqui, aliás, ultrapassam-se questões relativas às estruturas propriamente ditas (embora não as descartemos de todo).
Podemos começar por apontar que linguisticamente, de facto, estamos perante uma realidade de Jano. Primeiro, a diversidade linguística, com cerca de mil línguas, excluídos os dialectos: depois da América pré-colombiana, a África é o continente mais poliglota, embora apenas poucas dezenas dessas línguas tenham mais de um milhão de falantes. Uma diversidade correspondente ainda a uma distribuição de espaços bastante ampla, isto se apenas nos ativermos ao critério “línguas”, descurando assim a sua filiação a uma das sete famílias de línguas cientificamente definidas. Perante mapa tão retalhado não é de admirar que o continente apresente tantas línguas veiculares – o suaíli, a oriente, o haussa a ocidente, o lingala e quicongo/kikongo na RD Congo, o fanagalo nas minas sul-africanas, o amárico na Etiópia, o árabe na África do Norte. Também a influência dos conquistadores e suas línguas (árabes a partir do século sétimo, os europeus desde o século Quinze...)
E, central  a tudo isto, está o facto de a maior parte das línguas africanas serem ágrafas e por isso se desconhecer uma boa parte das designações que foram tendo ao  longo do tempo, sítios e lugares. É, portanto, uma designação estranha que muitas vezes prevalece, dada por um geógrafo ou viajante movido por várias coisas, desde a curiosidade turística (passe o anacronismo) à expedição em busca de novos territórios e fontes de riqueza, ou mesmo o exilado político em degredo ou o criminoso em fuga. Assim, relatos em língua arábica, em grego – comummente organizados na literatura como descrições de geógrafos árabes, gregos – dão conta de lugares...

É neste contexto que se verifica uma etimologia variada para os nomes dos países africanos. A começar pela designação do continente:
África - A designação África procede  do grego aphrike ("sem frio") e foi primeiro aplicada ao Norte de África. À medida porém que a Europa foi descobrindo a sua extensão, o nome aplicou-se a todo o continente. A riqueza proverbial da África é o topos preferido nas primeiras descrições dos historiadores e geógrafos gregos e romanos e não é desmentida pelos inventários do império romano. Estes dão conta das quantidades extraordinárias de produtos agrícolas produzidos nos vastos domínios de proprietários romanos, sendo o imperador o maior dos latifundiários. Mas há mais, muito mais: pedras preciosas, mármores, tintas, essências, madeiras, animais e plantas exóticas. Produtos em bruto sobretudo, mas a arte em madeira e metais, a azulejaria decerto trazida por árabes  também existe.
Uma nota para os (17) Sahelianos: Benim, Burkina-Faso, Cabo Verde,  Camarões, Chade, Congo Brazzaville, Gabão, Gana, Guiné-Bissau, Guiné-Equatorial, Mali, Mauritânia, Nigéria, Níger, Senegal, Sudão e Togo.
Argélia – O país recebeu o nome da sua capital Argel (em Árabe, ا- Al-Jazair ("A Ilha"), em referência às ilhotas que outrora havia ao longo da baía desta cidade.
Angola –De Ngola, título do rei dos Quimbundos, povo que habitava um território hoje partilhado por três países -  Angola, RDCongo e RPCongo. Em 1482,  quando o marinheiro português Diogo Cão aportou na embocadura do Rio Congo, toda a região era administrada por dois reinos distintos: ao Norte o Bacongo e a oeste e centro o Quimbundo, também designado Ndongo. O soberano destes era o Ngola, e foi a partir desse título quimbundo que toda a região viria a ser nomeada Angola, incluindo três reinos - Angola, Benguela e Congo.
Benim - (Antiga Daomé). O nome vem do antigo reino nigeriano do Benim. O nome que teve do séc XVI, data da sua fundação pelos descendentes do fundador de Ifé, até à independência, em 30.11.1975, era Daomé, (pronunciado na língua ---Dan Ho Me "no ventre de Dan"). Este antigo reino situava-se a sul da actual República do Benim.
Botswana – Nome do grupo étnico predominante, os Tswana. Antiga Terra dos Bechuana. Bechauna é outra pronúncia para Botswana.
Burkina-Faso – Na língua Mossi significa "Terra dos Homens Incorruptíveis", nome que tem desde 1984 quando substituiu o de Alto Volta, este que era uma referência à sua localização geográfica relativamente ao rio Volta. Burkinabé.
Burundi – De Rundi, a língua falada em todo o território.
Camarões (Cameroon/Cameroun) – Do nome que os portugueses, aí chegados em 1471, deram ao actual rio Wuri, por terem visto aí muitos destes crustáceos. Camaronês.
Cabo Verde (Cape Verde/Cap-Vert) – Da designação dada por Dinis Dias, em 1444, ao ponto mais ocidental de África, originou-se o nome do país-arquipélago.
Centro-Africana, República
Chade – Do nome do lago, na sua fronteira sudoeste com a Nigéria.
Comores (ou "Comoros") – O nome deriva do árabe kamar or kumr, “lua”, e foi primeiro dado a Madagáscar, antes de o ser ao arquipélago a noroeste. As quatro  ilhas principais foram islamizadas no século XII e cada uma foi, desde então, um emirado autónomo, conhecido dos navegadores portugueses – que lhe chamaram o Comoro –desde inícios da era de Quinhentos. A autonomia manter-se-ia até à ocupação pelos colonizadores franceses, no século XIX, e só voltaria a ser plenamente reconquistada com a proclamação da independência do Estado das Comores, um dia depois da de Cabo Verde. 
Congo, RP – Do reino do Congo, do século XV, delimitado pelas duas margens do rio Congo, e que compreendia as actuais RP Congo, RD Congo, Angola e Zâmbia. Em 1482  quando o marinheiro português Diogo Cão aportou na embocadura do Rio Congo[3] toda a região era administrada por dois reinos distintos: ao Norte o Bacongo e a oeste e centro o Quimbundo, também designado Ndongo. O soberano destes era o Ngola, e foi a partir desse título quimbundo que toda a região viria a ser nomeada Angola, incluindo três reinos - Angola, Benguela e Congo. Línguas Nac:  lingala 50%,  monokutuba 30%,  lari 15% - todas bantu. Só cinco séculos depois, os Europeus se fixaram no território, com a Conferência de Berlim de 1885 a reconhecer o protectorado francês iniciado por Savorgnan de Brazza, em 1880 ao assinar um tratado com Makoko, o rei dos Bateke. Em 1908 fez parte da África Equatorial Francesa
Congo, RD – ex-Zaire, este o nome tradicional do Rio Congo. 
Costa de Marfim /Côte d'Ivoire /Ivory Coast – As primeiras refªs são da 2ª metade do século XV por negociantes europeus atraídos pela abundância de presas de marfim. E seria este produto a dar o nome ao território.  Diula, mandé, baoulé.
Djibouti - (Antigo Território dos Afars e Issas). Do nome do porto da sua capital.
Egipto - Do g. aigípan “Pã com pés de cabra”, sobrenome do deus romano Silvano, designava os habitantes de África, meio homens meio bodes. O actual território é, em termos geográficos, o descendente directo do Antigo Egipto.
Eritreia – Da expressão latina Mare Erythraeum, "Mar Vermelho", com que os italianos nomearam as suas colónias no Mediterrâneo, a partir de uma refª clássica, a da Eritreia, uma das doze cidades da Liga Jónica, depois Liga Délica. Possivelmente,não será de descurar umalenda relatada emPlínio segundo a qual as suas águas faziam crescer os cabelos, mas...  no corpo. Depois, Eritreia, nome que o país adoptou aquando da independência face à Etiópia. 
Etiópia – Os antigos gregos deram-lhe este nome que significa "faces queimadas". O nome original era Abissínia.
Gabão – Quando os portugueses aí chegaram em 1471, acharam que havia uma semelhança entre a forma do estuário do Rio Como e a do “gabão”, casaco de mangas e capuz, cuja forma se assemelhava ao do Estuário do Rio Como.
Gâmbia – Do nome do rio que atravessa o país. Quando os portugueses aí chegaram em 1446, sob o comando de Nuno Tristão, ou de Estevão Afonso com oito caravelas, dominava na região o rei dos mandingas e a acolhida foi hostil. Só dez anos mais tarde Diogo Gomes subiria o rio até 400 km da foz, estabelecendo relações comerciais.
Gana – Do nome do antigo reino, fundado antes de 500. As primeiras descrições são de Al-Bakri e Al-Idrisi, c.1067 e 1154, respectiva/. Referem que o império está no auge do seu poder, devido ao seu ouro. Aliás, na 1ª referência ao Gana, de 772, Al-Fazari, um astrónomo,  chama-lhe “Terra do Ouro”. Pelo mesmo diapasão afinou um século mais tarde Al-Masudi, assim como o seu contemporâneo Al-Hamadhani, que algo hiperbolicamente escreveu que aí o ouro crescia como as plantas na areia, como cenouras e arrancado ao entardecer. Ibn Hawkal descreveu o soberano do Gana como o rei mais rico entre os reis em toda a face da terra. Riqueza que lhe viera em parte por herança desde tempos remotos acumulada. Relato idêntico ao de Al-Bakri, que acrescentara que ao rei eram reservadas as pedras de ouro e ao povo o ouro em pó e que até os cães reais, que faziam a guarda ao soberano, tinham coleiras de prata e ouro. Al-Idrisi escreveu que o rei possuía uma pedra de ouro, toda natural, que pesava trinta libras. Acrescentou que a pedra fora furada para que se prendesse nela o cavalo de Sua Majestade. Tão importante como o comércio do ouro era o do sal, extraído em Taghaza, no Saara, que valia o seu peso em ouro. Também havia exportação de escravos.
O comércio que tinha como principal promotor e intermediário o Gana era tão importante que Ibn Hawkal relata ter visto em Sijilmasa, entreposto desse comércio entre o norte (Egipto e Norte de África) e o sul (controlado pelo rei do Gana), um comerciante passar a outro um cheque de 42 mil dinares (100 mil libras em 1966). (Bohaen, A. Adu. Topics in West African History)
Guiné (Guinea/Guinée) - Do berbere aguinaw, ou gnawa ("homem negro"), com que os Berberes (Nómadas do Saara) descreveram a África Ocidental.
Guiné-Bissau – São, além do crioulo, 25 as línguas de duas famílias, a Oeste-Atlântica e a Mandê, estas duas das sete subfamílias da Família Níger-Congo. E o apodo de “étnicas” que em geral as acompanha, é em  termos de ciência linguística irrelevante.
Guiné Equatorial - Guiné-Conacri (Conakry)
(Fica para logo!)

Lesoto (Lesotho) – Do nome étnico Soto, a etnia dominante. Antiga Basutolândia. 
Libéria - Do latim liber, o nome geográfico constitui uma referência ao regresso dos escravos libertos dos EUA que fundaram a actual República da Libéria. 
Líbia (Libya) -   Em 1934, a Itália adoptou o nome que os Gregos deram ao Norte de África, excepto Egipto. A nova colónia  compreendia as Províncias de Cirenaica, Tripolitânia e de Fezzan.
Madagáscar – Nome de origem incerta. Atribui-se a Marco Polo (que nunca aí esteve) a sua confusão com Mogadíscio, actual Somália. A ilha começou por ser referida ora como Madeigascar ora como Mogelasio. Madagascar cerca do S. XVI. Pode ser uma referência local, "Terra dos Malgaxes", designação deste etnónimo e também da língua local, aliás uma língua não-africana, segundo Greenberg que a classifica no grupo das malaio-polinésias. Outra versão é que os Reis Malgaxes se referiam à ilha como "Izao will rehetra izao " ou " Izao tontolo izao ("toda essta terra"). 
Malauí / Malawi – Deriva de Marawi – Uma confederação de estados outrora existentes na área hoje ocupada pelo Malauí. 
Mali – A partir do nome do antigo reino do Mali. 
Maurícias / Maurício - Em honra do príncipe Maurício de Nassau, os exploradores holandeses deram à ilha o nome de Mauritius. Os franceses dominaram-na a partir de 1715 e chamaram-lhe Ile de France. Em 1810, a ilha foi invadida por ingleses que lhe deram o primeiro nome, com estas duas formas em português.
Mauritânia (Mauritania) – Das descrições  espanholas que referiam a terra dos Mouros, o etnónimo para os governantes árabes do Sul da Península Ibérica. Mas a história do nome recua até ao antigo Reino Berbere.
Mayotte – Na sua maioria o povo é Moare, de origem malgaxe. Mayotte chamava-se o seu primeiro governador francês. Note-se que Maore ou Mahore (Comoranos) descreve as terras deste grupo étnico, os Moares.
Marrocos – O descendente directo do Antigo Marrocos.
Moçambique – Nome em honra de Mouzinho de Albuquerque, o português que no séc. XIX dominou as rebeliões nacionalistas e abriu caminho ao controlo português sobre o território. 

Namíbia – Do deserto do Namibe, ao longo da costa. Namibe, na língua nama significa "sítio onde nada existe". 
Níger e Nigeria - Do latim niger, “negro”. 
Quénia (Kenya) – Da montanha do mesmo nome, do Kikuyu Kirinyaga, ou Kere-Nyaga ("Montanha da Brancura"). 
Reunião – Departamento ultramarino francês, as ilhas têm esse nome desde 1848 depois de várias mudanças de nome e da ocupação temporária por ingleses.
Ruanda (Rwanda) – Da língua nacional, Ruanda (ou Kinyarwanda).
Saara Ocidental (SADR) –Outra designação: República Democrática do Sarauí Árabe. Esta provém do nome do grupo étnico dominante, os árabes sarauís. 
Saara Ocidental (SADR) –Outra desingação: República Democrática do Sarauí Árabe. Este provém do nome do grupo étnico dominante, os árabes sarauís. 
São Tomé e Príncipe – Descoberta em 1471, pelos pilotos Pêro Escobar e João de Santarém ao serviço de Fernão Gomes, a 21 de Dezembro, dia de S. Tomé. A segunda ilha, porque descoberta a 17 de Janeiro e seguindo o método de atribuir aos santos festejados no calendário as novas terras descobertas, foi-lhe dado o nome de Santo Antão, depois Santo Antóno, e finalmente Santo Antóno do Príncipe – por ser o príncipe, futuro João II, o usufrutuário da cana-de-açúcar (aí introduzida pelo seu donatário António Carneiro).
Senegal – Do Rio Senegal (Há quem diga que deriva do wolof "sunu gaal", significando "nosso barco", a resposta que os pescadores Lebus teriam dado à pergunta sobre o nome daquilo que apontaram os primeiros europeus aí aportados.)
Serra Leoa –Quando o navegador português Pedro de Sintra aí aportou em 1462, a forma das montanhas sugeriu-lhe o nome. Um século depois, os ingleses anglicizaram-no para  'Sierra Leoa';  no S.XVII era em inglês 'Sierra Leona', e cerca de 1787, sob domínio britânico “Sierra Leone”.
Seychelles - Em 1756, as ilhas tornaram-se a colónia francesa de Séchelles, do nome de Moreau de Séchelles, Ministro das Finanças sob Luís XV. Durante o S. XIX, sob domínio britânico o nome foi anglicizado em Seychelles.
 Somália –Do povo, os  Somalis, o grupo étnico dominante, aí chegado antes do séc. VIII, depois de comerciantes iranianos e árabes aí introduzirem o Islão. Estes pr seu turno encontraram-no povoado, desde tempos remotos.  Migrações sucessivas de negros e árabes até ao século XVI.
Suazilândia (Swaziland) – Do inglês “a Terra dos suázis”, o povo que forma 97% da população e aí estabelecido desde o séc. XVIII. 
Sudão – Da expressão árabe bilad as-sudan, "terra dos negros", usada por árabes para escrever a actual África subsaariana (ie, excepto Marrocos, Tunísia, Líbia, Argélia e Egipto). (ie, excepto Marrocos, Tunísia, Líbia, Argélia e Egipto).  Herdeiro dos antigos reinos de Napata, séc. VIII a.C., e de  Meróe, séc. IV a.C. 
Tanzânia – Aglutinação de dois nomes, o da continental Tanganhica o das ilhas de  Zânzibar. Aglutinação de dois nomes, o do Tanganhica, continental, e o das ilhas de  Zânzibar, territórios unidos em 1964 (3 anos depois da independência do Tanganhica), mas conservando  a sua autonomia.  Das  1ªs regiões habitadas, há c. 2 milhões anos. Bosquímanos. Bantos, no princípio da era cristã. S. VII, árabes, com comércio de ouro, escravos e marfim. Contactos com persas, indianos, indonésios e chineses. Quíloa,  com o monopólio do comércio do ouro do Zimbabwé, atinge o apogeu no S. XIII. Em 1500, os port. Aí chegaram e em pouco tempo  fizeram dela a primeira cidade oriental a pagar tributo  ao rei D. Manuel. No séc. XVIII, os árabes dominavam todo o litoral e Quíloa  tornava-se no s.XIX o maior centro negreiro da África oriental. O interior ia estabelecendo tratados que colocavam todo o território sob domíno alemão.
 Togo – O território foi explorado a partir do século XV, primeiro por portugueses depois por dinamarqueses, que aí traficaram escravos. Só no séc. XIX, substituiu-se a exploração escravocrata por produção de óleo de palma, por franceses, alemães e ingleses. Em 1884, um negociante alemão estabelece um contrato e o território é declarado protectorado alemão e recebe o nome de Togoville, de um povoado na Alemanha.
Tunísia – De Tunes, actual capital e antiga cidade-estado muito poderosa e sucessora de Cartago, a cidade fundada pela rainha Elisa, a Dido da Eneida.


Uganda – De Buganda, o grupo étnico dominante. 
Zâmbia – Do Rio Zambeze, a Sul.
Zimbabué (Zimbabwé)– Antigo império comercial, remontando à Idade do Ferro. Casas de Pedra, na língua Xona(). Nos séc. XIV-XV, apogeu do império do Monomotapa, assente na extracção e comércio de ouro. Chegada dos portugueses no séc. XVI. Colónia britânica em 1924, a partir do protectorado  iniciado c. 1880 por Cecil Rhodes. A partir dos anos 50, primeiras formações políticas locais.  Indep.: em 1964.



BIBLIOGRAFIA
(= à da Tese defendida em 2001, www.up.pt/repositorio_digital. Ver secções  História, Linguística)


Redigido entre 1995 e 2007.

domingo, 6 de julho de 2014

Dia de África, partilho o meu African Dream

O tema do American Dream, por vezes combinando sodadedzuspérsecafomepartida /ora di baiseparason, ora em aliança ora em antinomia, avulta dentre a diversidade de temas tratados na música – e a partir dos quais muitos de nós, dentro e também fora do país, construímos uma certa imagem de Cabo Verde.
Partir é realizar um sonho, mas com a esperança de voltar. Porquê? Que sonho levou este a sair, viver meio século fora e de olhos postos nesta casinha branca para lhe receber os ossos?  Pergunto-me neste sábado à tarde, no alto da saudade derradeira. A sua última estação onde um familiar veio depor por ele, querido extinto, a sua cruz, agora não literal e só metafórica: as últimas cinzas.

Daqui avisto o centro da antiga Povoação de Santa Cruz,  foz de duas ribeiras. Como as viu a primeira caravela, das vindas da costa, nesse dia 17 de Janeiro da Era de Quatrocentos.  Navegando ao vento por este  mar,  única saída duma Europa com fome –  de fome literal e também  metaforicamente faminta, vendo a miragem milenar do Jardim das Filhas do velho  Héspero, Insulae Fortunatae, Hesperitanae Insulae. Insula, ilha a oeste,  avistada do mar na caravela vinda vendo real mais miragem e sonho projectados. Rica África.

Daqui, metafórica janela, também tenho neste domingo, Dia de África, vista para o mundo.  Da minha janela interior, o meu olhar é global  para este presente e futuro informados pelo conhecimento do passado. As idas e vindas vendo da janela: “na Merca de nos sonhe” (na Merka de nos sonhe)  não são só os tiroteios, mais um suicida interpelando o Pai, nem são  mais uns drones lançados sobre amigos de ontem.  Desta vez, são as denúncias pelo diário novaiorquino mais respeitado: nestes últimos cinco anos,  mais de dois milhões de imigrantes ilegais, a maior parte africanos, foram, estão a ser deportados. Um lustro que marca um triste recorde!
Mas há mais: enquanto esperam a hora da deportação são encerrados em centros de detenção onde podem esperar semanas, meses e anos. E para que esses centros funcionem, é o próprio Governo Federal que está a utilizar a mão-de-obra aí à mão de semear. Tudo de acordo com  a lei, que é da Era  McCarthy, sem correção monetária.  Tudo legal: se a lei diz que o trabalho do detento  pode ser remunerado, a paga é de um dólar por dia de trabalho.  Se a lei não prevê pagamento em dinheiro, faz-se em espécie, por exemplo, xis dias de trabalho em troca de um dia fora, num centro de recreação supervisionado. American Dream crioulo?! Vou mudar de chip!

Daqui  também neste domingo, Dia de África, partilho o meu African Dream  e garanto a quem me lê que todos os dias ponho uma pedrinha para realizar este desafio:

Quero novas imagens neste solo de Cabo Verde africana nação crioula, de todas as cores e tons da universalidade. African Dream, a África com novas imagens que ressumam as nossas alegrias. As alegrias duradouras que  resultam de uma visão própria,  concretizada numa planificação, vontade executiva, empreendedorismo unindo a acção colectiva.

quarta-feira, 25 de junho de 2014


Os Avatares das Ilhas. Ou a infindável demanda da identidade cabo-verdiana


Para o leitor, que sou e somos, um livro é sempre uma descoberta, às vezes agradável, outras nem tanto. Umas vezes fácil, outras, só possível depois de várias leituras.
Este livro Os Avatares das Ilhas é um romance, como esclarece o seu Preâmbulo। Lê-se para se descobrir, sim, que é um romance sui generis. S ui generis é também uma classificação que tem sido dada à identidade cabo-verdiana, designadamente por antropólogos, nacionais e estrangeiros, e só cito dois de entre muitos - Alberto Sobrero, Lopes Filho. Muito tem sido dito sobre o que é ser cabo-verdiano, a nível dos ensaios que se interrogam sobre este objecto. A nível da produção poética, da nossa escassa produção romancística, a tal ponto que será de acarinhar, lendo, traduzindo, relendo, criticando os livros que a pertinácia, o amor e curiosidade, ou tudo isso junto vai gerando.

Um dos factores que contribui para a característica sui generis acima apontada é que este é um romance de tese, em cuja arquitectura entram elementos estruturantes como a conceptualização, a organização textual, a articulação entre a forma e o fundo, expressão e conteúdo। Um romance cujo conteúdo indica a preocupação de denunciar as inverdades – aquela que está no relatório dum governador colonial, a que está nos mais recentes desenvolvimentos da nossa História por escrever.

Sui generis ainda porque procura representar a realidade da forma como um romance o faz. Ou seja, o romance não descreve factos, que é trabalho de outro tipo de texto. Um romance, esse, interpreta e representa o sentido do real e se o real pode ser descrito em factos, muito mais pode ser interpretado e representado através da construção de sentidos, uma construção sábia que o romance e só ele pode tentar fazer.
Sui generis ainda porque, pela sua natureza, o romance permite entretecer num todo coerente orgânico, elementos que de outro modo seriam dispersos। É assim que, leitor e habitué das epopeias, encontraremos em Os Avatares das Ilhas um Homero e um Eneias, que raros conheciam e agora passam a conhecer nesta saga. Encontraremos em Os Avatares das Ilhas ainda, sugerida, se não erro, a transformação do romance culto que em pura alquimia se modifica na boca do povo. Como é que de tais elementos dispersos se organiza o todo, para se atingir a tal coerência orgânica de que acima se fala? Falemos de arquitectura, texto que combinam tais elementos distintos. Ou seja, há uma arquitectura do texto pela qual se tecem as Mitologias, inventadas, reinventadas e consagradas. Assim o Homero que, de autor histórico, surge aqui em avatar, numa transmigração em que o criador se torna criatura e pode dialogar com um Eneias, ainda como há vinte séculos, criatura imortal por um criador que não o é. Herói, Homero em oitava letra. Heróis mais: Samuel, Lina, Benvinda. O herói é o que se expõe num concurso para o hino nacional? O herói é um cavalheiro que se expõe a uma atroz punição apenas para defender o bom nome da sua dama? Ou a dama é o herói, em luta contra as convenções sociais que diminuem não só a mulher mas também a criatura humana? A dama é este herói que adapta o seu combate a novos valores? O herói? Heróis ou anti-heróis? Terá o leitor a resposta? Haverá respostas para as perguntas que o leitor e vai descobrindo? A demanda será mesmo interminável? Estaremos pernate o romance aberto preconizado no nouveau roman, de que nos falou o "Preâmbulo"?

Como se faz a actualização destes Avatares nestas Ilhas? Ilhas. Sabemos quais são estas ilhas, os seus nomes estão lá, e designadas na sua realidade toponímica, brincam com os conceitos de invenção e reinvenção.
Um leitor é atraído desde cedo pelos aparatos do livro, por um título, por aquilo que já sabe de outros livros, pelas sugestões ao seu próprio mundo que o livro promete. Esse é o ar de família que convive com um aspecto, paradoxal, inquietante até: o livro também tem de ser um desafio.
Este é um livro que desafia o leitor. Em especial, mais que o leitor em demanda da identidade, aquele que não deixou murchar em si uma das qualidades que fez avançar a nossa espécie desde a aurora dos tempos: a curiosidade. Como se faz a actualização destes Avatares nestas Ilhas?Ilhas que têm nome, trazido de fora, nomes que tomaram a forma e sobretudo o fndo que lhe demos, lhe dermos. Por isso, é importante o verbo abundante, os jogos em que o Maravilhoso e o Real dialogam, as sinestesias, o ritmo próprio uma estrutura 3-4-2, que dá o compasso a "Ilhas ammordaçadas" mas também "ubíquas" e de "desvario" – como na utopia que é uma eutopia, a das ruas que sabemos e sonhamos que um dia vão ser o lugar do Belo. Isto , acho, é o principal que pedimos a um livro familiar e curioso como estes Avatares das Ilhas.

MLL


           
Comemorações do Dia de Camões na Universidade de Cabo Verde

Começo por dar as boas-vindas a todos os presentes, à nossa Comunidade da Universidade de Cabo Verde, aos nossos ilustres Convidados, que se dignaram vir à nossa Universidade de Cabo Verde, a fim de juntos comemorarmos o Dia de Camões que é também a data em que se celebra o Português como nossa Língua Comum, que partilhamos. O Português que é a Língua Materna de Portugueses, e para nós Cabo-Verdianos Língua Não-Materna, Língua Nacional e Língua de Encontros, ou se quisermos de Contactos como comprovou há dias, nesta mesma sala, o Seminário GELIC.
Língua Nacional, em Cabo Verde, é para nós a Língua de Camões, e que na nossa Constituição figura em paridade com a primeira Língua Nacional que é o Cabo-Verdiano. Lembro que a simples enunciação de “Língua de Camões” produz efeitos interpretativos que são comuns ao comum dos cidadãos, tanto em Portugal como em Cabo Verde. Aqui e lá interpretamos “Língua de Camões” como a Língua que nos abriu portas, nos fez entrar num mundo de oportunidades que a Escola nos proporciona. E sem esquecer todavia que foi também a língua do poder, da segregação social e racial, mesmo se amenizada, lembramos isto aqui porque é um exercício necessário para podermos aceitar que a língua é também nossa, que a ganhamos com muito esforço, como língua que não recebemos todos do berço. Uma língua que, desde há mais de quinhentos anos, temos vindo a conquistar com suor, lágrimas e também risos. Uma língua que nos permitiu também aceder à criação literária no seu sentido mais lato que inclui a música, essa expressão do génio cabo-verdiano como dizia o Professor e Escritor Baltasar Lopes. Uma língua que nos permitiu também aceder à criação pela literatura. Tanto a erudita e propriamente dita literatura, quanto pela literatura popular que aqui se foi formando e manifesta nas várias expressões que a criação cabo-verdiana tem produzido.
Uma língua que é viva e foi padronizada para os fins de expansão e que nos interpela para um maior aprofundamento no seu estudo, neste sem dúvida marcante “2014. Ano da Língua Cabo-Verdiana na Uni-CV”, que se segue a “2012. Ano da Língua Portuguesa na Uni-CV”. Lembremos que, no século XIX, os primeiros textos escritos em Língua Cabo-Verdiana foram inspirados por poemas de Camões como “Aquela Cativa que me tem Cativo/Barbara Bonita Scraba” ou o canto quinto de “Os Lusíadas” traduzido em Linga de Sentonton por um natural dessa ilha, Santo Antão, esse canto que evoca as Filhas do Velho Héspero, as Hespérides, um mito a que Camões dá nova vida, no caminho da Expansão – que vai enriquecer a Língua Portuguesa com novos contributos, resultando dos encontros de culturas e línguas.
É ainda pertinente dizer que, além de representar a Mgª Reitora impossibilitada de estar presente aqui hoje, eu estou aqui enquanto professora de Português e estudiosa das nossas línguas nacionais. Estudar porque o papel de professora a isso me obriga! E isso  é uma atividade que me tem permitido empreender caminhos que vão ter à História da Língua Portuguesa, este Português que me exige uma atualização constante, como, por exemplo, a obrigação de estarmos atentos não só à atualidade da Língua, mas ainda atentos aos caminhos que a atualidades da investigação vai abrindo, e lembro aqui que se quando abordei a História da Língua Portuguesa em 1986, no fim da licenciatura, na Universidade de Lisboa, era tido como verdade que o texto mais antigo era de 1212 ou 1214, poucos anos depois quando voltei lá para fazer a pós-graduação para a especialização no ramo do ensino, os estudos da eminente linguista Ana Martins tinham demonstrado, já nesse início dos anos Noventa, que o texto mais antigo era o “Notícia de Fiadores”, de 1175! É caso para dizer que os 800 anos da Língua Portuguesa (que alguma distração fez celebrar aqui há dias) nunca foram festejados na data certa, se calhar, nunca acertaremos o passo com as datas do passado, haverá sempre mais uma fonte a descobrir. Celebremos pois o dia de hoje, Dia de Camões, esse grande Camões, a quem os desventurados grandes poetas chamam de “meu semelhante”, e patrono para os que amam a Língua Portuguesa, dele e nossa, sempre viva.

Universidade de Cabo Verde no Campus do Palmarejo, 11 de junho 2014.

sábado, 17 de maio de 2014

Dia da Família 2014. Como evoluiu o binómio família-migração

Dia da Família 2014. Como evoluiu o binómio família-migração Por ocasião do Dia da Família, este ano, dei por mim a recriar de memória trechos literários sobre a emigração nossa. Recreei-me por temáticas como O querer ficar e ter que partir, Si ca bado ca ta birado (Si ka badu ka ta biradu), e o hino Hora di bai. Rememorei-os esta manhã enquanto ouvia comentar: O quadro da migração cabo-verdiana evoluiu tanto! Emigravam os homens, as mulheres ficavam a liderar a família. Trago para uma leitura partilhada os extratos, a seguir, da nossa conterrânea Saara I. Almadina, que, em A Saga da Água, documenta uma realidade passada há 80 anos. A Filha do Emigrante Quem sai da vila e vai pela ribeira na direcção sudeste, acima, ao fim de um par de léguas encontra um bardo de pedras cercando uma plantação de bananeiras. Sem saber, poderá estar a ser visto da janela do sótão de uma casa assobradada, escondido tanto pela densa folhagem quanto pela exígua janelinha tapada por esvoaçante cortina. Quem habita o quarto assim escondido dos olhares de quem passa, são poucos os que o sabem. É o mais bem guardado segredo das redondezas. Tudo começara num dia já bem longínquo. Uma carta a anunciar a tão aguardada chegada pôs tudo em alvoroço. Dez anos de espera contados um a um, dia após dia… Tanto tempo passara já desde a madrugada do dia em que a mula, ajoujada com a mala de latão foi conduzida pela arreata pelo Vicente, menino de casa, aí criado desde a mais tenra idade, enquanto o Cosme cavalgava a égua ruça. As despedidas tinham sido bem dolorosas. A jovem mulher de Cosme, a Delfina, de figura delicada a condizer com o nome, nenhum esforço fazia para segurar as lágrimas. Mas em frente dos outros calava as palavras que dissera havia pouco: “Ó Cosme, ene ê pa ba. Ó Deus, pa via de quê bo casá ma mim pa bem dexa-m nhe me-so?” Entre lágrimas e súplicas, não mais pôde ser adiada a partida. O aviso chegara de que o navio para São Vicente saía do Paul, daí a nada, pouco mais de três horas. Um mês fazia que Cosme se fora. Um mês mais e carta nenhuma ainda. Mas não era de estranhar: a América tão longe… Mais outro e outro mês. Até que um dia… a carta. De tempos a tempos, três, quatro vezes num ano, lá ia chegando uma carta. Mandava dinheiro. Ela guardava-o. Depois as cartas foram rareando. Até que um dia, já se tinham passado cinco anos, era fácil de ver pelo crescimento dos meninos, as cartas emudeceram.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

MASCULINO OU FEMININO? Depende do significado, da origem.
1. O dengue; a dengue?
Resposta: O dengue– adj. 2 gen =afectado, presumido. Deriva de ndengue, que em quimbundo significa menino, manha de menino; em Castelhano dengue que significa “denguice, requebro”
A dengue (s.f.)Doença epidémica causada pelo mosquito aedes Aegypti.
2. O pool, a pool, a poule, o poule?Resposta: ???????????
3. O personagem, a personagem?
O dicionário aponta os dois géneros. Há quem distinga o personagem, quando se refere a um actor, por exemplo, mas se for uma actriz diria a personagem. Contudo em português as palavras terminadas em – agem normalmente são femininas: margem, paisagem, aragem, barragem, etc.
4. O cariz, a cariz, o chafariz, a chafariz?
Resposta: O cariz porque é um substantivo o masculino; o chafariz, de origem árabe.



4 anos, 8 meses e 27 dias depois do comentário acima:
Estamos em agosto, a chuva ainda não caiu e o perigo dos mosquitos na fase pós-pluvial da azágua ainda não se faz sentir. E como sempre nada de prevenção.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Prós e contras? Os pró e contra?

Prós e contras? Os pró e contra? Pró-Cabo Verde e *prós-EUA?
Questão 1ª: Se queremos significar "as vantagens e os inconvenientes", dizer "O pró e o contra" é correcto?
Resposta: Embora pouco de nós nos atrevamos a dizer taxativamente que é incorrecto, uma análise mais cuidada, como a que se exige a um professor de português, mostra que: gramaticalmente correcta é a forma plural. Como mostra a experiência de quem lida quotidianamente com a língua portuguesa, a um nível que lhe exige reflexão e exercício constantes, decerto não isentos de err(ância)o)s), esta expressão apresenta-se como uma fórmula fixa, logo invariável.
É esta forma invariável do substantivo (um pluralia tantum) que está nos bons dicionários, incluindo o Houâiss e o da Academia de Letras de Lisboa, ambos recentes e tidos como os melhores de sempre.

Questão 2ª: Dado o que foi dito acima, dizer (com o referido sentido, "vantagens e inconvenientes") pluralizando apenas o artigo "Os pró e o contra" é correcto?
Resposta: Dada a gramática do português, essa construção é incorrecta pois é de regra marcar o plural no substantivo e em todos os elementos da concordância nominal. (N.B.: Há línguas em que essa regra é diferente.)

Questão 3ª: Mas com o sentido "os que são a favor; os que estão contra"? estarão correctas as frases seguintes, de a) a f):
a) Quem é pró e quem é contra? Eu sou pró.
b) Há que desencadear, na sociedade portuguesa, movimentos contra.
c) Duas manifestações, uma pró e outra contra.
d) Os que estão pró e os que estão contra.
e) Venezuelanos pró e contra Chavéz protestam.
f) Duas manifestações, uma pró e outra contra.
Resposta: Cada uma destas frases, em que se omite o objecto directo (a resposta a O QUÊ?), só é aceitável dentro do contexto, em que já houve uma referência ao tema. (Por exemplo, o tema do Acordo Ortográfico.)
Além disso, note-se que "pró", "contra" são neste contexto, advérbios, logo invariáveis.

Questão 4ª: Mas com esse mesmo sentido ("os que são a favor; os que estão contra"), estarão correctas as frases g) e h)?
g) Os pró e os contra protestam.
h) Os pró e os contra manifestem-se!
Resposta: Não serão totalmente correctas, mas só aceitáveis, estas frases. Isto se entendermos que houve uma elipse do substantivo inicial a qual modifica a categoria do Advérbio que passa a substantivo (pró, contra):
g) Os (venezuelanos ) pró e os (venezuelanos) contra (Chavéz) protestam.
h) Os (portugueses) pró e os (portugueses ) contra (o AO) manifestem-se!
Note-se, no entanto, que numa situação em que se deve preferir os sentidos-primeiros, pois os sentidos-segundos implicam análise e ou tempo (sempre escasso), a nossa escrita (para que não se entenda "as vantagens e os inconvenientes de", mas sim "os cidadãos que estão a favor de; se opõem a") deve ir no sentido da maior clareza:
g) Os venezuelanos pró e os contra Chavéz protestam. /Os que estão pró/ contra Chavéz protestam.
h) Os portugueses pró / os contra o AO manifestem-se! /Os que estejam pró/ contra o Acordo que se manifestem.

Questão 5ª: Ainda com esse mesmo sentido ("os que são a favor; os que estão contra"), como se explicam as formas: pró-capitalismo, pró-Rússia, pró-divórcio, contra-natura, contra-nação, os pró-formas, as facturas pró-forma?
Respostas: Nestas formas, retoma-se o significado dos advérbios latinos "pro" e "contra": a favor de, em prejuízo de. Notamos, pois, a actual concorrência entre o advérbio e o substantivo. O substantivo, por outra, tende a surgir nas nossas mentes em primeiro lugar. Daí que o sentido-primeiro que nos ocorre ao ouvirmos "pro" e "contra" não seja o que tinha primitivamente, mas aquele que desenvolveu por extensão semântica e que está a secundarizar o seu concorrente.
N.B: O * (asterisco) significa: não é gramaticalmente correcta/o.