quarta-feira, 25 de junho de 2014



           
Comemorações do Dia de Camões na Universidade de Cabo Verde

Começo por dar as boas-vindas a todos os presentes, à nossa Comunidade da Universidade de Cabo Verde, aos nossos ilustres Convidados, que se dignaram vir à nossa Universidade de Cabo Verde, a fim de juntos comemorarmos o Dia de Camões que é também a data em que se celebra o Português como nossa Língua Comum, que partilhamos. O Português que é a Língua Materna de Portugueses, e para nós Cabo-Verdianos Língua Não-Materna, Língua Nacional e Língua de Encontros, ou se quisermos de Contactos como comprovou há dias, nesta mesma sala, o Seminário GELIC.
Língua Nacional, em Cabo Verde, é para nós a Língua de Camões, e que na nossa Constituição figura em paridade com a primeira Língua Nacional que é o Cabo-Verdiano. Lembro que a simples enunciação de “Língua de Camões” produz efeitos interpretativos que são comuns ao comum dos cidadãos, tanto em Portugal como em Cabo Verde. Aqui e lá interpretamos “Língua de Camões” como a Língua que nos abriu portas, nos fez entrar num mundo de oportunidades que a Escola nos proporciona. E sem esquecer todavia que foi também a língua do poder, da segregação social e racial, mesmo se amenizada, lembramos isto aqui porque é um exercício necessário para podermos aceitar que a língua é também nossa, que a ganhamos com muito esforço, como língua que não recebemos todos do berço. Uma língua que, desde há mais de quinhentos anos, temos vindo a conquistar com suor, lágrimas e também risos. Uma língua que nos permitiu também aceder à criação literária no seu sentido mais lato que inclui a música, essa expressão do génio cabo-verdiano como dizia o Professor e Escritor Baltasar Lopes. Uma língua que nos permitiu também aceder à criação pela literatura. Tanto a erudita e propriamente dita literatura, quanto pela literatura popular que aqui se foi formando e manifesta nas várias expressões que a criação cabo-verdiana tem produzido.
Uma língua que é viva e foi padronizada para os fins de expansão e que nos interpela para um maior aprofundamento no seu estudo, neste sem dúvida marcante “2014. Ano da Língua Cabo-Verdiana na Uni-CV”, que se segue a “2012. Ano da Língua Portuguesa na Uni-CV”. Lembremos que, no século XIX, os primeiros textos escritos em Língua Cabo-Verdiana foram inspirados por poemas de Camões como “Aquela Cativa que me tem Cativo/Barbara Bonita Scraba” ou o canto quinto de “Os Lusíadas” traduzido em Linga de Sentonton por um natural dessa ilha, Santo Antão, esse canto que evoca as Filhas do Velho Héspero, as Hespérides, um mito a que Camões dá nova vida, no caminho da Expansão – que vai enriquecer a Língua Portuguesa com novos contributos, resultando dos encontros de culturas e línguas.
É ainda pertinente dizer que, além de representar a Mgª Reitora impossibilitada de estar presente aqui hoje, eu estou aqui enquanto professora de Português e estudiosa das nossas línguas nacionais. Estudar porque o papel de professora a isso me obriga! E isso  é uma atividade que me tem permitido empreender caminhos que vão ter à História da Língua Portuguesa, este Português que me exige uma atualização constante, como, por exemplo, a obrigação de estarmos atentos não só à atualidade da Língua, mas ainda atentos aos caminhos que a atualidades da investigação vai abrindo, e lembro aqui que se quando abordei a História da Língua Portuguesa em 1986, no fim da licenciatura, na Universidade de Lisboa, era tido como verdade que o texto mais antigo era de 1212 ou 1214, poucos anos depois quando voltei lá para fazer a pós-graduação para a especialização no ramo do ensino, os estudos da eminente linguista Ana Martins tinham demonstrado, já nesse início dos anos Noventa, que o texto mais antigo era o “Notícia de Fiadores”, de 1175! É caso para dizer que os 800 anos da Língua Portuguesa (que alguma distração fez celebrar aqui há dias) nunca foram festejados na data certa, se calhar, nunca acertaremos o passo com as datas do passado, haverá sempre mais uma fonte a descobrir. Celebremos pois o dia de hoje, Dia de Camões, esse grande Camões, a quem os desventurados grandes poetas chamam de “meu semelhante”, e patrono para os que amam a Língua Portuguesa, dele e nossa, sempre viva.

Universidade de Cabo Verde no Campus do Palmarejo, 11 de junho 2014.

sábado, 17 de maio de 2014

Dia da Família 2014. Como evoluiu o binómio família-migração

Dia da Família 2014. Como evoluiu o binómio família-migração Por ocasião do Dia da Família, este ano, dei por mim a recriar de memória trechos literários sobre a emigração nossa. Recreei-me por temáticas como O querer ficar e ter que partir, Si ca bado ca ta birado (Si ka badu ka ta biradu), e o hino Hora di bai. Rememorei-os esta manhã enquanto ouvia comentar: O quadro da migração cabo-verdiana evoluiu tanto! Emigravam os homens, as mulheres ficavam a liderar a família. Trago para uma leitura partilhada os extratos, a seguir, da nossa conterrânea Saara I. Almadina, que, em A Saga da Água, documenta uma realidade passada há 80 anos. A Filha do Emigrante Quem sai da vila e vai pela ribeira na direcção sudeste, acima, ao fim de um par de léguas encontra um bardo de pedras cercando uma plantação de bananeiras. Sem saber, poderá estar a ser visto da janela do sótão de uma casa assobradada, escondido tanto pela densa folhagem quanto pela exígua janelinha tapada por esvoaçante cortina. Quem habita o quarto assim escondido dos olhares de quem passa, são poucos os que o sabem. É o mais bem guardado segredo das redondezas. Tudo começara num dia já bem longínquo. Uma carta a anunciar a tão aguardada chegada pôs tudo em alvoroço. Dez anos de espera contados um a um, dia após dia… Tanto tempo passara já desde a madrugada do dia em que a mula, ajoujada com a mala de latão foi conduzida pela arreata pelo Vicente, menino de casa, aí criado desde a mais tenra idade, enquanto o Cosme cavalgava a égua ruça. As despedidas tinham sido bem dolorosas. A jovem mulher de Cosme, a Delfina, de figura delicada a condizer com o nome, nenhum esforço fazia para segurar as lágrimas. Mas em frente dos outros calava as palavras que dissera havia pouco: “Ó Cosme, ene ê pa ba. Ó Deus, pa via de quê bo casá ma mim pa bem dexa-m nhe me-so?” Entre lágrimas e súplicas, não mais pôde ser adiada a partida. O aviso chegara de que o navio para São Vicente saía do Paul, daí a nada, pouco mais de três horas. Um mês fazia que Cosme se fora. Um mês mais e carta nenhuma ainda. Mas não era de estranhar: a América tão longe… Mais outro e outro mês. Até que um dia… a carta. De tempos a tempos, três, quatro vezes num ano, lá ia chegando uma carta. Mandava dinheiro. Ela guardava-o. Depois as cartas foram rareando. Até que um dia, já se tinham passado cinco anos, era fácil de ver pelo crescimento dos meninos, as cartas emudeceram.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

MASCULINO OU FEMININO? Depende do significado, da origem.
1. O dengue; a dengue?
Resposta: O dengue– adj. 2 gen =afectado, presumido. Deriva de ndengue, que em quimbundo significa menino, manha de menino; em Castelhano dengue que significa “denguice, requebro”
A dengue (s.f.)Doença epidémica causada pelo mosquito aedes Aegypti.
2. O pool, a pool, a poule, o poule?Resposta: ???????????
3. O personagem, a personagem?
O dicionário aponta os dois géneros. Há quem distinga o personagem, quando se refere a um actor, por exemplo, mas se for uma actriz diria a personagem. Contudo em português as palavras terminadas em – agem normalmente são femininas: margem, paisagem, aragem, barragem, etc.
4. O cariz, a cariz, o chafariz, a chafariz?
Resposta: O cariz porque é um substantivo o masculino; o chafariz, de origem árabe.



4 anos, 8 meses e 27 dias depois do comentário acima:
Estamos em agosto, a chuva ainda não caiu e o perigo dos mosquitos na fase pós-pluvial da azágua ainda não se faz sentir. E como sempre nada de prevenção.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Prós e contras? Os pró e contra?

Prós e contras? Os pró e contra? Pró-Cabo Verde e *prós-EUA?
Questão 1ª: Se queremos significar "as vantagens e os inconvenientes", dizer "O pró e o contra" é correcto?
Resposta: Embora pouco de nós nos atrevamos a dizer taxativamente que é incorrecto, uma análise mais cuidada, como a que se exige a um professor de português, mostra que: gramaticalmente correcta é a forma plural. Como mostra a experiência de quem lida quotidianamente com a língua portuguesa, a um nível que lhe exige reflexão e exercício constantes, decerto não isentos de err(ância)o)s), esta expressão apresenta-se como uma fórmula fixa, logo invariável.
É esta forma invariável do substantivo (um pluralia tantum) que está nos bons dicionários, incluindo o Houâiss e o da Academia de Letras de Lisboa, ambos recentes e tidos como os melhores de sempre.

Questão 2ª: Dado o que foi dito acima, dizer (com o referido sentido, "vantagens e inconvenientes") pluralizando apenas o artigo "Os pró e o contra" é correcto?
Resposta: Dada a gramática do português, essa construção é incorrecta pois é de regra marcar o plural no substantivo e em todos os elementos da concordância nominal. (N.B.: Há línguas em que essa regra é diferente.)

Questão 3ª: Mas com o sentido "os que são a favor; os que estão contra"? estarão correctas as frases seguintes, de a) a f):
a) Quem é pró e quem é contra? Eu sou pró.
b) Há que desencadear, na sociedade portuguesa, movimentos contra.
c) Duas manifestações, uma pró e outra contra.
d) Os que estão pró e os que estão contra.
e) Venezuelanos pró e contra Chavéz protestam.
f) Duas manifestações, uma pró e outra contra.
Resposta: Cada uma destas frases, em que se omite o objecto directo (a resposta a O QUÊ?), só é aceitável dentro do contexto, em que já houve uma referência ao tema. (Por exemplo, o tema do Acordo Ortográfico.)
Além disso, note-se que "pró", "contra" são neste contexto, advérbios, logo invariáveis.

Questão 4ª: Mas com esse mesmo sentido ("os que são a favor; os que estão contra"), estarão correctas as frases g) e h)?
g) Os pró e os contra protestam.
h) Os pró e os contra manifestem-se!
Resposta: Não serão totalmente correctas, mas só aceitáveis, estas frases. Isto se entendermos que houve uma elipse do substantivo inicial a qual modifica a categoria do Advérbio que passa a substantivo (pró, contra):
g) Os (venezuelanos ) pró e os (venezuelanos) contra (Chavéz) protestam.
h) Os (portugueses) pró e os (portugueses ) contra (o AO) manifestem-se!
Note-se, no entanto, que numa situação em que se deve preferir os sentidos-primeiros, pois os sentidos-segundos implicam análise e ou tempo (sempre escasso), a nossa escrita (para que não se entenda "as vantagens e os inconvenientes de", mas sim "os cidadãos que estão a favor de; se opõem a") deve ir no sentido da maior clareza:
g) Os venezuelanos pró e os contra Chavéz protestam. /Os que estão pró/ contra Chavéz protestam.
h) Os portugueses pró / os contra o AO manifestem-se! /Os que estejam pró/ contra o Acordo que se manifestem.

Questão 5ª: Ainda com esse mesmo sentido ("os que são a favor; os que estão contra"), como se explicam as formas: pró-capitalismo, pró-Rússia, pró-divórcio, contra-natura, contra-nação, os pró-formas, as facturas pró-forma?
Respostas: Nestas formas, retoma-se o significado dos advérbios latinos "pro" e "contra": a favor de, em prejuízo de. Notamos, pois, a actual concorrência entre o advérbio e o substantivo. O substantivo, por outra, tende a surgir nas nossas mentes em primeiro lugar. Daí que o sentido-primeiro que nos ocorre ao ouvirmos "pro" e "contra" não seja o que tinha primitivamente, mas aquele que desenvolveu por extensão semântica e que está a secundarizar o seu concorrente.
N.B: O * (asterisco) significa: não é gramaticalmente correcta/o.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Ribeira de Penedo.Marcas dos Dias

Ribeira de Penedo.Marcas dos Dias

Verdadeiras marcas. Porque foram intencionalmente gravadas. Por quem? Com que intenção? Teremos um dia a resposta definitiva?
Respostas já há muitas. Para os habitantes, como nha Bia, o que é certo é que a pedra sempre lá esteve. Ta ben xkorrose, el ta levá tude pedra, so kel lá nunka el pude leva-l.
Se nunca o pôde levar, ao penedo, vai ser cada vez mais impossível, agora que lhe construiram um muro-pedestal e lhe tornaram legíveis as incisões, originalmente da cor da pedra. O silicone (palavra que em 2009 faz 200 anos e que o corrector Windows insiste que é fem., como no francês seu primeiro étimo) sublinha hoje o que outrora só se lia ao pé e com dificuldades maiores.
Protecção e visibilidade. Se isto não se transformar em maior vulnerabilidade: já há mais marcas, tentativas que não passam de garatujas de adolescentes em mare própria de busca de identidade, visibilidade… Tentames porque a pedra é dura e pensemos como um marinheiro, armado de um tosco canivete, como lograria ele gravar na pedra dura? Ou, então, viria já armado de conveniente aparato para a escrita na pedra – um duro estilete metálico. O que quer dizer que viria já preparado, talvez até porque uma das suas funções era precisamente essa: gravar na pedra, na terra vinda de achar, para memória futura. Tudo, pois, seria feito intencionalmente – tão dificeis inscrições.
Respostas mais: que é latim, diz um homem, dum grupo que por cá anda para cima para baixo numa manhã alta. Que é fenício, aventaram especialistas e uma alta autoridade aproveitaria a deixa para embelezar o discurso em dia de inauguração, fazendo-nos ver nautas emissários de Dido, em busca de especiarias no Oceano, além das colunas de Hércules.
Veramente. Existe. Disco Verão azul. Vera nas pedras, penedos da Ribeira de Penedo. Da Saudade, fica noutra ribeira maior, a do Mondego. Aqui a Saudadade mora no nome do Lombo.

Lombo da Saudade. É no pós-Sinagoga. Não há como não se interrogar se não será nome recente, o marketing a apontar, despontar, por aqui.
A saudade pela perda de um ente querido.
Um filho perdido na Praia. Blimunde, imolado, para que o Menino-Teseu possa ascender. Longe de mitos, presente é a dor que lhe trouxe a cidade cruel. Lá onde ela nunca esteve nem nunca quererá ir. Já visitou dois continentes chamada por filhas e primos. A Praia não, que el bebe-l se sangue, ma ses ose ele ene kme-l. M mandá ba beske-l i M interrè-l la na Rebera de Janela. A C era se nome.
Era Maio e as maias...

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Fernando Pessoa como bem de interesse nacional

O Conselho de Ministros de Portugal aprova a 30/7/2009 o
Decreto que classifica como bem de interesse nacional o espólio documental de Fernando Pessoa
Este Decreto procede à classificação do espólio de Fernando Pessoa como bem de interesse nacional, denominando-o «tesouro nacional».

É o reconhecimento do interesse cultural - a nível histórico, linguístico, documental e social - do espólio pessoano. Este é constituído pela obra que produziu Fernando Pessoa - desde livros impressos, manuscritos à espera de edição, folhas e notas soltas - bem como por tudo o que leu, incluindo as anotações, sublinhados e outras marcas autógrafas que documentam as suas reacções de leitor.

«tesouro nacional»: o legado de Fernando Pessoa reflecte "valores de memória, autenticidade, originalidade, raridade, singularidade e exemplaridade". Com esta classificação recebe o espólio a forma de protecção mais elevada conferida a bens culturais móveis.

domingo, 29 de março de 2009

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